São Paulo, 18 de março de 2025 – A pesquisa clínica é um dos temas mais relevantes da atualidade, não apenas pelo impacto no avanço da medicina, com o objetivo de curar mais pacientes e oferecer tratamentos cada vez mais eficazes, mas também pelo papel fundamental no desenvolvimento de novas tecnologias. Os Estados Unidos são um dos líderes de pesquisa científica global. No Brasil, o mercado tem potencial, mas lá fora, a posição no ranking mundial é baixa (20º). Para os especialistas que estiveram presentes no I Encontro Anual de Pesquisa Clínica , realizado no último dia 14, em São Paulo, para o país se tornar protagonista neste setor é preciso investir na formação de pesquisadores e experimentalistas – que, hoje, estão fora do país -, acabar com os gargalos que envolvem complexidades contratuais e logística, melhorar o arcabouço tecnológico, e inovar para diminuir o déficit no número de tratamentos no Brasil ante lá fora.

O que falta

Para o Superintendente de Ensino, Pesquisa e Inovação no AC Camargo Cancer Center, Dr. José Humberto Fregnani, não existe uma formação oficial de trialista e investigador/pesquisador clínico no país, e o pesquisador investigativo nem sempre tem formação acadêmica. “Os trialistas são aqueles que desenham o estudo/ensaio clínico. Precisamos ter mais deles. Este é o grande desafio que temos, pois há grandes cursos que trazem fundamentos, mas não para formar estes profissionais. E isto impacta diretamente na contribuição científica, enfraquece a política de ciência e tecnologia, além de impactar no SUS também”, diz Fregnani.

Para o Gerente Executivo da Associação Brasileira de Organizações Representativas de Pesquisa Clínica (Abracro), Fernando Francisco, os principais gargalos no Brasil são: contratos, melhoria logística, capacitação profissional em pesquisa clínica e laboratório central. Isto porque amostras são enviadas para o exterior.

Desafios

Dados epidemiológicos reais que apoiam a necessidade brasileira, a implementação da lei, a questão aduaneira com relação aos prazos (tempo para o desembaraço dos insumos é bastante demorado), dos tributos de produtos de pesquisa clínica (outros países têm permissão e isto diminuem a competitividade do país) e expansão dos centros de pesquisa do Eixo Sul/Sudeste são alguns dos desafios em pesquisa clínica apresentados durante a primeira edição do EAPC, realizada pela Orentt Medical. “Além de expandir os eixos, é importante também descentralizar os centros de pesquisa para públicos não-representados”, reflete o oncologista Dr. Fernando Maluf, embaixador do congresso.

Estudos fase 3 são os mais prevalentes no país

Os estudos 1 e 2 são mais distribuídos nos Estados Unidos, segundos dados apresentados no encontro. No Brasil, o que prevalece são os estudos de fase 3, ou seja, já na fase de implementação. Existe uma vontade de toda a comunidade em obter maior participação do Brasil nos estudos fase 1 e 2. Isto significa que há pouca inovação chegando e saindo daqui.

Áreas promissoras

Para o Dr. Fregnani, as áreas de CP que se destacam no país são oncologia, sistema nervoso central e doenças infecciosas, e as áreas que têm mais potencial para se destacar são cardiologia e hematologia. Há iniciativas federais para a Pesquisa Clínica no Brasil. “Está na agenda do governo. Desde 2005, há uma rede nacional de pesquisa clínica e uma portaria excelente (559)”, comenta. Esta portaria define os requisitos para a aprovação e monitoramento dos estudos, garantindo que os procedimentos respeitem os direitos dos indivíduos e a integridade dos dados coletados, em alinhamento às normativas internacionais de pesquisa científica.

Segundo o Dr. José Barreto, da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde, a rede de prevenção e controle do câncer é prioridade e as pesquisas para a cura da doença nesta rede terão mais impacto. “Os objetivos do Governo são aumentar o acesso e diminuir o tratamento. A Oncologia integra o SUS e o SUS integra a oncologia”, comenta Barreto, que ressaltou que o slogan “Tempo é Vida” é uma lógica dentro do SUS.

Lei 14.874/24

Criado pelo Líder Nacional de Pesquisa Clínica da Oncoclínicas, Dr. Fábio Franke com o suporte de diretores do SBOC, a lei regulamenta a pesquisa clínica com seres humanos no Brasil. Após mais de sete anos de tramitação no Congresso Nacional, uma nova lei foi publicada no ano passado.

Interesse chinês

Para o diretor da Abracro, Fernando Francisco, os chineses sabem do potencial brasileiro na área de pesquisa clínica pela sua diversidade minorias, infraestrutura e tradição, por conta disso tem muito interesse no país. “A China tem vontade de levar seus estudos para o Brasil. O papel deste país é cada vez maior, pois é mais rápido e mais barato que nos Estados Unidos e na Europa. Eles devem ganhar espaço nesse processo político e com os cortes recentes feitos pelo presidente norte-americano”, disse o executivo que falou externamente do território durante sua palestra.

Reputação do Brasil em pesquisa

Para a líder Médica de Oncologia da AbbVie Brasil, Maria Isabel Duran, a indústria precisa ser proativa em relação à sede no país. “Não somos lentos para implementar os estudos. É preciso comunicar isto para melhorar nossa imagem”, comenta a Diretora Sênior de Pesquisas Clínicas da AstraZeneca, Patricia Gutierrez.

Dados de mercado

Segundo informações do Instituto Brasil de Pesquisa Clínica (IBPClin), este mercado no Brasil vem crescendo nos últimos anos, mas ainda está em desvantagens em relação ao resto do mundo. Segundo dados recentes do Instituto, 65% das pesquisas sobre novos medicamentos, vacinas e equipamentos médicos são realizadas na Europa e nos Estados Unidos. Já a América Latina responde por apenas 4% dessas pesquisas, especialmente no desenvolvimento de novos medicamentos.

Segunda edição

O Congresso reuniu membros da indústria farmacêutica, governo, grupos cooperativos, investigadores, organizações de pesquisas acadêmicas, entre outros, com o intuito de caracterizar a situação atual na área de pesquisa clínica. A segunda edição já está marcada e será no dia 13 de março de 2026.